Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT17 2022 (nº 2)
Atenção: Leia o trecho inicial da crônica "Histórias de Zig", de Rubem Braga, para responder às questões de números 1 a 9.
Um dia, antes do remate de meus dias, ainda jogarei fora esta máquina de escrever e, pegando uma velha pena de pato, me porei a narrar a crônica dos Braga. Terei então de abrir todo um livro e contar as façanhas de um deles que durou apenas onze anos, e se chamava Zig.
Zig – ora direis – não parece nome de gente, mas de cachorro. E direis muito bem, porque Zig era cachorro mesmo. Se em todo o Cachoeiro era conhecido por Zig Braga, isso apenas mostra como se identificou com o espírito da Casa em que nasceu, viveu, mordeu, latiu, abanou o rabo e morreu.
Teve, no seu canto de varanda, alguns predecessores ilustres, dos quais só recordo Sizino, cujos latidos atravessam minha infância, e o ignóbil Valente, que encheu de desgosto meu tio Trajano. Não sei onde Valente ganhou esse belo nome; deve ter sido literatura de algum Braga, pois hei de confessar que só o vi valente no comer angu. E só aceitava angu pelas mãos de minha mãe.
Um dia, tio Trajano veio do sítio... Minto! Foi tio Maneco. Tio Maneco veio do sítio e, conversando com meu pai na varanda, não tirava o olho do cachorro. Falou-se da safra, das dificuldades da lavoura.
– Ó Chico, esse cachorro é veadeiro.
Meu pai achava que não; mas, para encurtar conversa, quando tio Maneco montou sua besta, levou o Valente atrás de si com a coleira presa a uma cordinha. O sítio não tinha três léguas lá de casa. Dias depois meu tio levou a cachorrada para o mato, e Valente no meio. Não sei se matou alguma coisa; sei apenas que Valente sumiu. Foi a história que tio Maneco contou indignado a primeira vez que voltou no Cachoeiro; o cachorro não aparecera em parte alguma, devia ter morrido...
– Sem-vergonhão!
Acabara de ver o Valente que, deitado na varanda, ouvia a conversa e o mirava com um olho só.
Nesse ponto, e só nele, era Valente um bom Braga, que de seu natural não é povo caçador; menos eu, que ando por este mundo a caçar ventos e melancolias.
(Rubem Braga. 50 crônicas escolhidas. São Paulo: Global Editora, 2021)
O cronista dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9.
- ATerei então de abrir todo um livro e contar as façanhas de um deles que durou apenas onze anos, e se chamava Zig. (1º parágrafo)
- BUm dia, antes do remate de meus dias, ainda jogarei fora esta máquina de escrever e, pegando uma velha pena de pato, me porei a narrar a crônica dos Braga. (1º parágrafo)
- CZig – ora direis – não parece nome de gente, mas de cachorro. E direis muito bem, porque Zig era cachorro mesmo. (2º parágrafo) (alternativa correta)
- DNão sei onde Valente ganhou esse belo nome; deve ter sido literatura de algum Braga, pois hei de confessar que só o vi valente no comer angu. (3º parágrafo)
- ETio Maneco veio do sítio e, conversando com meu pai na varanda, não tirava o olho do cachorro. (4º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Dirigir-se explicitamente ao leitor significa que o autor usa palavras ou expressões que se referem diretamente a "você" (o leitor) ou "nós" (autor e leitor), como se estivesse conversando com quem lê.
(A) Incorreta: O cronista fala sobre suas próprias intenções futuras ("Terei", "contar"), sem se dirigir diretamente ao leitor.
(B) Incorreta: O cronista descreve suas próprias ações futuras ("jogarei", "me porei"), sem um vocativo ou pronome que aponte para o leitor.
(C) Correta: A expressão "ora direis" (vocês dirão) e "E direis muito bem" (e vocês dirão muito bem) usa o verbo na segunda pessoa do plural, antecipando uma fala ou pensamento do leitor e respondendo a ele, o que é uma forma explícita de se dirigir ao público.
(D) Incorreta: Embora "hei de confessar" sugira que o autor está compartilhando algo com o leitor, a fala é sobre a própria ação do cronista ("eu confesso"), não um direcionamento explícito ao "você". Esta é a armadilha mais tentadora, pois a confissão implica um ouvinte, mas a construção gramatical não é um "você" direto.
(E) Incorreta: Este trecho é uma narração de fatos ("Tio Maneco veio", "conversando", "não tirava"), sem qualquer forma de se dirigir ao leitor.
Fonte: FCC TRT17 2022 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.