Questão nº 5

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-15 2018 (nº 5)

FCC2018Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Atenção: Leia o texto a seguir para responder às questões de números 1 a 9.

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel é autora da coletânea de textos O cérebro nosso de cada dia, que tratam de curiosidades como o mito de que usamos apenas 10% do cérebro, por que bocejo contagia, se café vicia, o endereço do senso de humor, os efeitos dos antidepressivos. A escrita é acessível e descontraída e os exemplos são tirados do cotidiano. Mesmo assim, Suzana descreve o processo de realização de cada pesquisa e discute as questões mais complexas, como a relação entre herança e ambiente, as origens fisiológicas de determinados comportamentos e o conceito de consciência. Leia a entrevista abaixo.

Muitos se queixam da ausência de uma "teoria da mente" satisfatória e dizem que a consciência humana é um mistério que não se poderia resolver – mesmo porque caberia à própria consciência humana resolvê-lo. O que acha? Acho que, na ciência, mais difícil do que encontrar respostas é formular perguntas boas. A ciência precisa de hipóteses testáveis, e somente agora, quando a neurociência chega perto dos 150 anos de vida, começam a aparecer hipóteses testáveis sobre os mecanismos da consciência. Mas "teorias da mente" bem construídas e perfeitamente testáveis já existem. A própria alegação de que deve ser impossível à mente humana desvendar a si mesma, aliás, não passa de uma hipótese esperando ser posta por terra. É uma afirmação desafiadora, e com um apelo intuitivo muito forte. Mas não tem fundamento. De qualquer forma, a neurociência conta hoje com um leque de ferramentas que permite ao pesquisador, se ele assim desejar, investigar por exemplo a ativação em seu cérebro enquanto ele mesmo pensa, lembra, faz contas, adormece e, em seguida, acorda. O fato de que o objeto de estudo está situado dentro da cabeça do próprio pesquisador não é necessariamente um empecilho.

Há várias pesquisas descritas em seu livro sobre a influência da fisiologia no comportamento. Você concorda com Edward O. Wilson que "a natureza humana é um conjunto de predisposições genéticas"? Acredito que predisposições genéticas existem, mas, na grande maioria dos casos, não passam de exatamente isso: predisposições. Exceto em alguns casos especiais, genética não é destino. A meu ver, fatores genéticos, temperados por acontecimentos ao acaso ao longo do desenvolvimento, fornecem apenas uma base de trabalho, a matéria bruta a partir da qual cérebro e comportamento serão esculpidos. Somadas a isso influências do ambiente e da própria experiência de vida de cada um, é possível transcender as potencialidades de apenas 30 mil genes – a estimativa atual do número de genes necessários para "montar" um cérebro humano – para montar os trilhões e trilhões de conexões entre as células nervosas, criando o arco-íris de possibilidades da natureza humana.

Uma dessas influências diz respeito às diferenças entre homens e mulheres, que seu livro menciona. Como evitar que isso se torne motivação de preconceitos ou de generalizações vulgares, como no fato de as mulheres terem menos neurônios? Se diferenças entre homens e mulheres são evidentes pelo lado de fora, é natural que elas também existam no cérebro. Na parte externa do cérebro, o córtex, homens possuem em média uns quatro bilhões de neurônios a mais. Mas o simples número de neurônios em si não é sinônimo de maior ou menor habilidade. A não ser quando concentrado em estruturas pequenas com função bastante precisa. Em média, a região do cérebro que produz a fala tende a ser maior em mulheres do que em homens, enquanto neles a região responsável por operações espaciais, como julgar o tamanho de um objeto, é maior do que nelas. Essa diferença casa bem com observações da psicologia: elas costumam falar melhor (e não mais!), eles costumam fazer operações espaciais com mais facilidade. O realmente importante é reconhecer que essas diferenças não são limitações, e sim pontos de partida, sobre os quais o aprendizado e a experiência podem agir.


As frases abaixo referem-se à pontuação do texto.

I. A vírgula antes da conjunção "e", no segmento precisa de hipóteses testáveis, e somente agora (2º parágrafo) deve-se à separação de duas orações com sujeitos distintos.

II. Em fatores genéticos, temperados por acontecimentos (3º parágrafo), caso se suprimisse a vírgula, o texto daria margem a se pensar em outros fatores genéticos para além dos que são "temperados por acontecimentos".

III. A vírgula presente no segmento evidentes pelo lado de fora, é natural que elas (último parágrafo) deve-se à ausência de conjunção em duas orações coordenadas.

Está correto o que consta de

Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

A vírgula é um sinal de pontuação que organiza o período, indicando pausas e separando elementos sintáticos para clareza e correção, como orações, termos explicativos ou adjuntos adverbiais deslocados.

(A) Incorreta: A alternativa afirma que I e III estão corretas, mas a afirmação III é incorreta.
(B) Incorreta: A alternativa afirma que I, II e III estão corretas, mas a afirmação III é incorreta.
(C) Incorreta: A alternativa afirma que apenas II está correta, mas a afirmação I também está correta.
(D) Incorreta: A alternativa afirma que II e III estão corretas, mas a afirmação III é incorreta.
(E) Correta:

  • A afirmação I está correta: Na frase "A ciência precisa de hipóteses testáveis, e somente agora... começam a aparecer hipóteses testáveis...", a primeira oração ("A ciência precisa de hipóteses testáveis") tem como sujeito "A ciência", enquanto a segunda oração ("somente agora... começam a aparecer hipóteses testáveis...") tem como sujeito "hipóteses testáveis". A vírgula antes do "e" é obrigatória quando as orações coordenadas aditivas possuem sujeitos distintos.
  • A afirmação II está correta: A expressão "temperados por acontecimentos" funciona como uma oração subordinada adjetiva explicativa (equivalente a "que são temperados por acontecimentos"). Se a vírgula fosse suprimida, a oração passaria a ter valor restritivo, indicando que apenas alguns fatores genéticos (aqueles "temperados por acontecimentos") seriam considerados, e não todos os fatores genéticos, como sugere o sentido explicativo original.
  • A afirmação III está incorreta: A vírgula no segmento "Se diferenças entre homens e mulheres são evidentes pelo lado de fora, é natural que elas" não se deve à ausência de conjunção em orações coordenadas. Na verdade, ela separa uma oração subordinada adverbial condicional ("Se diferenças entre homens e mulheres são evidentes pelo lado de fora") que está deslocada (antecipada) em relação à sua oração principal ("é natural que elas também existam no cérebro"). A armadilha aqui é confundir a relação de subordinação com a de coordenação, e ignorar a função da vírgula em separar orações adverbiais deslocadas.

Fonte: FCC TRT-15 2018 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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