Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-11 2024 (nº 4)
Enterro televisivo
"Uns olham para a televisão. Outros olham pela televisão."
(Dito de Sicrano)Estranharam quando, no funeral do avô Sicrano, a viúva Entrelua proclamou:
— Uma televisão!
— Uma televisão o quê, avó?
— Quero que me comprem uma televisão.
Aquilo, assim, de rompante, em plenas orações. Dela se esperava mais ajustado desejo, um ensejo solene de tristeza, um suspiro anunciador do fim. Mas não, ela queria naquele mesmo dia receber um aparelho novo.
— Mas o aparelho que vocês tinham avariou?
— Não. Já não existe.
— Como é isso, então? Foi roubado?
— Não, foi enterrado.
— Enterrado?
— Sim, foi junto com o corpo do vosso falecido pai.
Tudo havia sido congeminado junto com o coveiro. A televisão, desmontada nas suas quantas peças, tinha sido embalada no caixão. Era um requisito de quem ficava, selando a vontade de quem estava indo.
Na cerimônia, todos se entreolharam. O pedido era estranho, mas ninguém podia negar. O tio Ricardote ainda teve a lucidez de inquirir:
— E a antena?
Esperassem, fez ela com a mão. Tudo estava arquitetado. O coveiro estava instruído para, após a cerimônia, colocar a antena sobre a lápide, amarrada na ponta da cruz, em espreitação dos céus. Aquela mesma antena, feita de tampas de panela, ampliaria as eletrônicas nos sentidos do falecido. O velho Sicrano, lá em baixo, captaria os canais. É um simples risco a diferença entre a alma e a onda magnética. Por razão disso, a viúva Entrelua pediu que não cavassem fundo, deixassem o defunto à superfície.
— Para apanhar bem o sinal — explicou a velha.
O Padre Luciano se esforçou por disciplinar a multidão, ele que representava a ordem de uma só voz divina. Com uns tantos berros e ameaças ele reconduziu a multidão ao silêncio. Mas foi sossego de pouca dura. Logo, Entrelua espreitou em volta, e foi inquirindo os condoídos presentes:
— E o Bibito, onde está?
— O Bibito? — se interrogaram os familiares.
Ninguém conhecia. Foi o bisneto que esclareceu: Bibito era o personagem da novela brasileira. A das seis, acrescentou ele, feliz por lustrar conhecimento.
— E a Carmenzita que todas as noites nos visita e agora não comparece!
De novo, o bisneto fez luz: mais uma figura de uma telenovela. Só que mexicana. O filho mais velho tentou apaziguar as visões da avó. Mas qual Bibito, qual Carmen?! Então os filhos de osso e alma estavam ali, lágrima empenhada, e ela só queria saber de personagem noveleira?
— Sim, mas esses ao menos nos visitam. Porque a vocês nunca mais os vimos.
Esses que os demais teimavam em chamar de personagens, eram esses que adormeciam o casal de velhotes, noite após noite. Verdade seja escrita que a tarefa se tornava cada vez mais fácil. Bastava um repassar de cores e sonos para que as pestanas ganhassem peso. Até que era só ligar e já adormeciam.
— Quem vai ligar o aparelho hoje?
— É melhor não ser você, marido, porque noutro dia adormeceu de pé.
De novo, o padre invocou a urgência de um silêncio. Que ali havia tanto filho e mais tanto neto e ninguém conseguia apaziguar a viúva? Os filhos descansaram o padre. Que sim, que iam conduzi-la dali para o resguardo da casa. Entrelua bem merecia o reparo de uma solidão. E prometeram à velha que não precisava de um outro aparelho, que eles iriam passar a visitá-la, nunca mais a deixariam só. A avó sorriu, triste. E assim a conduziram para casa.
Aquela noite, ainda viram a avó Entrelua atravessar o escuro da noite para se sentar sobre a campa de Sicrano. Deu um jeito na antena como a orientá-la rumo à lua. Depois passou o dedo pelos olhos a roubar uma lágrima. Passou essa aguinha pela tampa da panela como se repuxasse. De si para si murmurou: é para captar melhor. Ninguém a escutou, porém, quando se inclinou sobre a terra e disse baixinho:
— Hoje é você a ligar, Sicrano. Você ligue que eu já vou adormecendo.
No trecho "Tudo havia sido congeminado junto com o coveiro." (parágrafo 12), o significado da palavra "congeminado" no contexto é:
- A"irmanado, harmonizado".
- B"multiplicado, propagado".
- C"representado no espírito ou na imaginação".
- D"unido a outro para formar um par".
- E"muito discutido, ponderado". (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O significado de uma palavra muitas vezes depende do contexto em que ela é usada. Para entender "congeminado", precisamos analisar como ela se encaixa na frase "Tudo havia sido congeminado junto com o coveiro" e na história do enterro da televisão.
- A) Incorreta: "Irmanado" significa tornar-se irmão ou semelhante, e "harmonizado" implica entrar em acordo ou equilíbrio. Embora o plano tenha sido acordado, o foco de "congeminado" não é a união ou o acordo final, mas o processo de criação e elaboração do plano em si.
- B) Incorreta: "Multiplicado" significa aumentar em número, e "propagado" significa espalhar. O plano não foi multiplicado ou espalhado, mas sim criado e detalhado.
- C) Incorreta: "Representado no espírito ou na imaginação" significa conceber mentalmente. Embora "congeminar" possa ter essa conotação de conceber ou imaginar, a expressão "junto com o coveiro" sugere uma ação colaborativa e detalhada de planejamento, não apenas uma imaginação individual. A armadilha aqui é que "congeminar" realmente significa "conceber" ou "imaginar", mas o complemento "junto com o coveiro" exige um sentido mais ativo e colaborativo, de elaboração conjunta, que vai além de uma simples representação mental.
- D) Incorreta: "Unido a outro para formar um par" refere-se a juntar duas coisas para fazer um par, o que não se aplica ao ato de planejar um enterro.
- E) Correta: "Muito discutido, ponderado" descreve perfeitamente o processo de elaboração de um plano complexo e secreto como o de enterrar uma televisão com o falecido, especialmente quando feito "junto com o coveiro". Implica que todos os detalhes (desmontar a TV, embalar no caixão, colocar a antena na lápide, não cavar fundo) foram pensados, conversados e considerados cuidadosamente entre os envolvidos.
Fonte: FCC TRT-11 2024 Técnico Judiciário – Área Administrativa (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.