Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 8)
A mensagem desejada
Brigaram muitas vezes e muitas vezes se reconciliaram, mas depois de uma discussão particularmente azeda, ele decidiu: o rompimento agora seria definitivo. Um anúncio que a deixou desesperada: vamos tentar mais uma vez, só uma vez, implorou, em prantos. Ele, porém, se mostrou irredutível: entre eles estava tudo acabado.
Se pensava que tal declaração encerrava o assunto, estava enganado. Ela voltou à carga. E o fez, naturalmente, através do e-mail. Naturalmente, porque através do e-mail se tinham conhecido, através do e-mail tinham namorado. Ela agora confiava no poder do correio eletrônico para demovê-lo de seus propósitos. Assim, quando ele viu, estava com a caixa de entrada entupida de ardentes mensagens de amor.
O que o deixou furioso. Consultando um amigo, contudo, descobriu que era possível bloquear as mensagens de remetentes incômodos. Com uns poucos cliques resolveu o assunto.
Naquela mesma noite o telefone tocou e era ela. Nem se dignou a ouvi-la: desligou imediatamente. Ela ainda repetiu a manobra umas três ou quatro vezes.
Esgotada a fase eletrônica, começaram as cartas. Três ou quatro por dia, em grossos envelopes. Que ele nem abria. Esperava juntar vinte, trinta, colocava todas em um envelope e mandava de volta para ela.
Mas se pensou que ela tinha desistido, estava enganado. Uma manhã acordou com batidinhas na janela do apartamento. Era um pombo-correio, trazendo numa das patas uma mensagem.
Não teve dúvidas: agarrou-o, aparou-lhe as asas. Pombo, sim. Correio, não mais.
E pronto, não havia mais opções para a coitada. Aparentemente chegara o momento de gozar seu triunfo; mas então, e para seu espanto, notou que sentia falta dela. Mandou-lhe um e-mail, e depois outro, e outro: ela não respondeu. E não atendia ao telefone. E devolveu as cartas dele.
Agora ele passa os dias na janela, contemplando a distância o bairro onde ela mora. Espera que dali venha algum tipo de mensagem. Sinais de fumaça, talvez.
(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2013, p. 71-72)
Um anúncio que a deixou desesperada: vamos tentar mais uma vez, só uma vez, implorou, em prantos. (1o parágrafo)
O trecho acima estará corretamente reescrito com a fala da namorada reportada em discurso indireto, e sem prejuízo do sentido, em:
Um anúncio que a deixou desesperada, implorando, em prantos,
- Atentássemos mais uma vez, pelo menos uma vez.
- Bque tentemos por uma única vez mais.
- Ctentem mais uma vez, apenas uma vez.
- Dque tentassem mais uma vez, ao menos uma vez. (alternativa correta)
- Esó uma vez, para tentarem mais uma vez.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Discurso indireto é quando a fala de alguém é contada por outra pessoa, sem usar as palavras exatas do falante original, mas sim relatando o que foi dito. Isso geralmente envolve mudanças nos verbos (tempos e modos), pronomes e advérbios, para que a fala se ajuste à perspectiva do narrador.
Análise do trecho original: "vamos tentar mais uma vez, só uma vez, implorou, em prantos."
A fala direta é "vamos tentar mais uma vez, só uma vez".
- "vamos tentar" está no presente do indicativo (1ª pessoa do plural, com sentido de sugestão/pedido).
- O verbo introdutório "implorou" está no passado.
Regras de conversão para este caso:
- A conjunção "que" é usada para introduzir a fala indireta.
- Quando o verbo introdutório está no passado ("implorou"), o verbo da fala direta geralmente "recua" um tempo verbal. O presente do indicativo ("vamos tentar") se transforma em pretérito imperfeito do subjuntivo ("tentassem").
- O pronome "nós" (implícito em "vamos", referindo-se a "ela e ele") no discurso direto se transforma em "eles" no discurso indireto, pois o narrador está relatando a fala do casal.
Alternativas:
- (A) Incorreta: "tentássemos" mantém a 1ª pessoa do plural ("nós"), mas no discurso indireto, a fala do casal ("nós") é relatada pelo narrador como sendo sobre "eles".
- (B) Incorreta: "que tentemos" está no presente do subjuntivo, não havendo o recuo do tempo verbal necessário, já que o verbo introdutório ("implorou") está no passado.
- (C) Incorreta: "tentem" está no presente do subjuntivo e se refere a "vocês" ou "eles", mas não há o recuo do tempo verbal.
- (D) Correta: "que tentassem" está no pretérito imperfeito do subjuntivo (recuo do tempo verbal) e na 3ª pessoa do plural ("eles"), o que está de acordo com as regras de transformação de discurso direto ("vamos tentar") para indireto, quando o verbo introdutório está no passado e a fala original se refere ao casal ("nós"). A expressão "ao menos uma vez" mantém o sentido de "só uma vez".
- Armadilha da banca: A alternativa A, "tentássemos", é tentadora porque mantém a ideia de "nós" (o casal), mas a transformação correta para o discurso indireto, quando o narrador relata a fala de "nós" (o casal), é para a 3ª pessoa do plural ("eles"), e não para a 1ª pessoa do plural ("nós") do narrador, que não faz parte do pedido.
- (E) Incorreta: "para tentarem" usa o infinitivo pessoal, que é uma construção possível para expressar finalidade ou pedido, mas a forma "que tentassem" é a mais direta e gramaticalmente padrão para a conversão de "vamos + infinitivo" (com sentido de pedido) para o discurso indireto, especialmente considerando a estrutura da frase.
Fonte: FCC TRF4 2019 Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Segurança e Transporte (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.