Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRE-SP 2017 (nº 8)
Sandberg, que mudou totalmente o conceito espectador/obra de arte com o seu trabalho de duas décadas no Museu Stedelijk, de Amsterdã, iniciou sua palestra elogiando a arquitetura do nosso MAM-RJ que, segundo ele, segue a sua teoria de que o público deve ver a obra de arte de frente e não de lado, como acontece até agora com o museu convencional de quatro paredes. O ideal, disse ele, é que as paredes do museu sejam de vidro e que as obras estejam à mostra em painéis no centro do recinto. O museu não é uma estrutura sagrada e quem o frequenta deve permanecer em contato com a natureza do lado de fora:
“A finalidade do museu de arte contemporânea é nos ajudar a ter consciência da nossa própria época, manter um espelho na frente do espectador no qual ele possa se reconhecer. Este critério nos leva também a mostrar a arte de todos os tempos dentro do ambiente atual. Isso significa que devemos abolir o mármore, o veludo, as colunas gregas, que são interpretações do século XIX. Apenas a maior flexibilidade e simplicidade. A luz de cima é natural ao ar livre, mas artificial ao interior. As telas são pintadas com luz lateral e devem ser mostradas com luz lateral. A luz de cima nos permite encerrar o visitante entre quatro paredes. Certos museólogos querem as quatro paredes para infligir o maior número possível de pinturas aos pobres visitantes.
É de capital importância que o visitante possa caminhar em direção a um quadro e não ao lado dele. Quando os quadros são apresentados nas quatro paredes, o visitante tem de caminhar ao seu lado. Isso produz um efeito completamente diferente, especialmente se não queremos que ele apenas olhe para o trabalho, mas o veja. Isso é ainda mais verdadeiro em relação aos grandes museus de arte contemporânea. Eles são grandes porque o artista moderno quer nos envolver com o seu trabalho e deseja que entremos em sua obra. Ao organizar o nosso museu, devemos ter consciência da mudança de mentalidade da nova geração. Abolir todas as marcas do establishment: uniformes, cerimoniais, formalismo. Quando eu era jovem, as pessoas entravam nos museus nas pontas dos pés, não ousavam falar ou rir alto, apenas cochichavam.
Realmente não sabemos se os museus, especialmente os de arte contemporânea, devem existir eternamente. Foram criados numa época em que a sociedade não estava bastante interessada nos trabalhos de artistas vivos. O ideal seria que a arte se integrasse outra vez na vida diária, saísse para as ruas, entrasse nas casas e se tornasse uma necessidade. Esta deveria ser a principal finalidade do museu: tornar-se supérfluo”.
(Adaptado de: BITTENCOURT, Francisco. “Os Museus na Encruzilhada” [1974], em Arte-Dinamite, Rio de Janeiro, Editora Tamanduá, 2016, p. 73-75)
Está correto o livre comentário que se encontra em:
- AO Masp, embora, desde sua concepção, levasse em conta ideias semelhantes às do texto de Francisco Bittencourt, até o ano de 2015 era ocupado de maneira tradicional. (alternativa correta)
- BPor mais que o Masp – tinha sido concebido como espaço aberto à compor um só ambiente com a cidade, foi incumbido convencionalmente.
- CAgora pode-se ver os cavaletes de Lina Bo Bardi, plano original de exposição das obras de arte no Masp, em que foram expostos por muito tempo junto as suas paredes.
- DSemelhante ao MAM do Rio de Janeiro, o Masp, projetado por Lina Bo Bardi, tiveram suas datas de fundação muito próximas, açambarcando obras de outros museus brasileiros.
- EMuseus como o Masp, sem dúvida, tem um papel decisivo na formação do olhar de pessoas que, durante sua vida, passa a frequentá-lo e a conhecer sua coleção de obras de arte universais.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: A questão testa correção gramatical (concordância, regência, crase, pontuação e paralelismo), não o conteúdo sobre museus. Você precisa ler cada frase e verificar se ela está redigida dentro da norma culta, ignorando se a informação histórica é verdadeira.
- (A) Correta: A frase está gramaticalmente perfeita: o verbo "levasse" (pretérito imperfeito do subjuntivo) concorda com "Masp" (singular), o "embora" exige o subjuntivo, e "até o ano de 2015 era ocupado" mantém a concordância correta (Masp era ocupado). Não há erro de regência ou pontuação.
- (B) Incorreta: Erro de concordância e de tempo verbal: "Masp – tinha sido concebido" deveria ser "Masp, que tinha sido concebido" (falta o pronome relativo) e "foi incumbido convencionalmente" está semanticamente estranho; além disso, o travessão mal usado quebra a estrutura. A banca quer que você note a falta do "que" e a voz passiva mal construída.
- (C) Incorreta: Erro de crase e de paralelismo: "junto as suas paredes" deveria ser "junto às suas paredes" (crase obrigatória). Além disso, "em que foram expostos" está ambíguo e o tempo verbal "foram expostos" não concorda bem com "plano original" (o plano não foi exposto, as obras foram). Armadilha: o distrator tenta você com a ideia de "cavaletes de Lina Bo Bardi", mas o erro é puramente gramatical.
- (D) Incorreta: Erro de concordância verbal: "o Masp, projetado por Lina Bo Bardi, tiveram" – o sujeito é singular ("o Masp"), então o verbo deveria ser "teve". A banca coloca um sujeito longo e distante do verbo para você se perder e achar que concorda com "Masp e MAM", mas o núcleo é só "Masp".
- (E) Incorreta: Erro de concordância numérica: "Museus como o Masp, sem dúvida, tem" – o sujeito é plural ("Museus"), então o verbo deve ser "têm" (com acento diferencial). Além disso, "pessoas que, durante sua vida, passa a frequentá-lo" – o verbo "passa" deveria concordar com "pessoas" (plural): "passam". Dois erros de concordância na mesma frase.
Fonte: FCC TRE-SP 2017 Analista Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.