Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TJ-SC 2021 (nº 8)
Atenção: Para responder às questões de números 01 a 11, considere o texto abaixo.
1 Amélia, 80, interrompe sonho de ter vaga na universidade para comprar geladeira. Amélia Pires fará 80 anos em 6 de dezembro um pouco mais distante de seu sonho. Há anos faz o exame vestibular para o curso de administração.
2 Mas este ano teve de desistir. A geladeira estava imprestável, e o dinheiro da inscrição − ajuda de um sobrinho − foi usado para pagar a prestação de uma nova. (Cotidiano, 24 de novembro de 2008)
3 Não foi uma decisão fácil, como se pode imaginar. Curso de administração ou geladeira? A favor de ambas as coisas, o curso e a geladeira, havia argumentos.
4 O curso era algo com que sonhava havia muito tempo, desde jovem, para dizer a verdade. Primeiro, porque era uma fervorosa admiradora da atividade em si, da administração. Organizar as coisas, fazer com que funcionem, levar uma empresa ao sucesso, mesmo em épocas de crise, sobretudo em épocas de crise, parecia-lhe um objetivo verdadeiramente arrebatador. Com o curso, ela poderia tornar-se, mesmo com idade avançada, numa daquelas dinâmicas executivas cuja foto via em jornais e em revistas.
5 Mas a geladeira... A verdade é que ela precisava de uma geladeira nova. A antiga estava estragada, e tão estragada que o homem do conserto a aconselhara a esquecer "aquele traste" e partir para algo mais moderno. E isso precisava ser feito com urgência: todos os dias estava jogando fora comida que estragara por causa do inconfiável eletrodoméstico.
6 Era o curso ou a geladeira. Era apostar no futuro ou resolver os problemas do presente. Ou se inscrevia na universidade ou pagava a prestação na loja: tinha de escolher. Dilema penoso. Durante duas noites não dormiu, fazendo a si própria cálculos e ponderações. "Faça o curso", sussurrava-lhe ao ouvido uma vozinha, "você será outra pessoa, uma pessoa com conhecimento, com dignidade, uma pessoa que todos respeitarão". E aí intervinha outra vozinha: "Deixe de bobagens, querida. Geladeira é comida, e comida é o que importa. Como é que você vai se alimentar se a comida continuar estragando desse jeito? Seja prática." Duas vozinhas. Anjinho e diabinho? Nesse caso, qual era a voz do anjinho, qual a do diabinho? Mistério.
7 Na manhã do terceiro dia sentiu um mau cheiro insuportável, vindo da cozinha. Foi até lá, abriu a geladeira e, claro, era a carne que simplesmente tinha apodrecido.
8 Foi a gota d'água. Vestiu-se, foi até a loja, e comprou a geladeira nova. Que lhe foi entregue naquele mesmo dia. Era uma bela geladeira, com muitos dispositivos que ela mal conhecia. "Vou ter de fazer um curso para aprender a operar essa coisa", disse ao homem da entrega. Ele concordou: "Sempre é bom fazer cursos".
9 Instalada a geladeira, ela tratou de colocar ali os alimentos e as bebidas. Foi então que encontrou a garrafa de champanhe. O champanhe que tinha comprado para celebrar com os vizinhos a sua entrada na universidade. Suspirou. O que fazer com aquilo, agora? Dar de presente para o sobrinho que a ajudara com o dinheiro da inscrição?
10 Resolveu guardar a garrafa. Bem no fundo da geladeira. Um dia ela ainda ingressaria no curso de administração, um dia brindaria a seu futuro. Era só questão de esperar. Sem medo: uma boa geladeira conserva qualquer champanhe.
(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. "O futuro na geladeira". Folha de S.Paulo, 01.12.2008)
Mantendo o sentido original, o trecho "Faça o curso", sussurrava-lhe ao ouvido uma vozinha (6º parágrafo) assume a seguinte redação em discurso indireto: Uma vozinha
- Asussurrava-lhe ao ouvido: que faça o curso.
- Bsussurrou-lhe ao ouvido: − Faça o curso.
- Csussurrava-lhe ao ouvido que fizesse o curso. (alternativa correta)
- Dque lhe sussurrava ao ouvido disse que fará o curso.
- Eao sussurrar-lhe ao ouvido disse que fizera o curso.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O discurso indireto é a forma de recontar a fala de alguém sem reproduzi-la literalmente. Para isso, adaptamos os verbos, pronomes e advérbios, transformando a fala em uma oração subordinada introduzida por "que" ou "se".
(A) Incorreta: A estrutura "sussurrava-lhe ao ouvido: que faça o curso" é gramaticalmente estranha para discurso indireto, e o verbo "faça" (presente do subjuntivo) não concorda com o verbo principal "sussurrava" (pretérito imperfeito do indicativo), que exige o pretérito imperfeito do subjuntivo.
(B) Incorreta: Esta alternativa ainda apresenta a fala em discurso direto, apenas substituindo as aspas por um travessão e alterando o tempo verbal do verbo de elocução para "sussurrou", mas mantendo a estrutura original da fala.
(C) Correta: O verbo principal "sussurrava" (pretérito imperfeito do indicativo) exige que a oração subordinada, que expressa uma ordem ou sugestão ("Faça o curso"), seja transformada para o pretérito imperfeito do subjuntivo ("que fizesse o curso"). Esta é a transformação correta para o discurso indireto.
(D) Incorreta: A construção "que lhe sussurrava ao ouvido disse" altera a estrutura sintática original e o tempo verbal "fará" (futuro do presente do indicativo) muda completamente o sentido da ordem/sugestão original.
(E) Incorreta: A construção "ao sussurrar-lhe ao ouvido disse" muda a forma do verbo de elocução, e o tempo verbal "fizera" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) indica uma ação passada concluída, desvirtuando o sentido de uma sugestão ou ordem.
Fonte: FCC TJ-SC 2021 Técnico Judiciário Auxiliar (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.