Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEFAZ-SC 2018 - Conhecimentos Gerais (P1) (nº 8)
Existe uma estreita relação entre nutrição, saúde e educação, de um lado, e capacidade de trabalho e iniciativa de outro. A incompetência econômica do indivíduo resulta em privação material: sua demanda por bens não corresponde a uma demanda recíproca, no mercado, por aquilo que ele é capaz de oferecer. Ao mesmo tempo, a pobreza de uma geração se torna o berço da incompetência da geração seguinte: o ambiente de privação material e ignorância em que nasce (e se forma) o indivíduo impede que ele desenvolva todas as qualidades físicas, morais e intelectuais das quais dependerá sua competência na vida prática e sua sobrevivência no mercado. Fecha-se assim o elo entre pobreza e improficiência.
Entre os economistas do século XIX, foi Marshall aquele que melhor compreendeu a importância da formação de capital humano – do investimento na qualidade da força de trabalho – para um programa de reforma social eficaz, voltado para a erradicação da pobreza e a promoção da riqueza e do desenvolvimento sociais. Na Inglaterra oitocentista de Marshall, existia um vasto contingente de indivíduos trabalhando com um nível baixíssimo de produtividade, semiocupados ou até incapacitados de exercer qualquer tipo de atividade no mercado que lhes garantisse o mínimo necessário para um padrão de vida tolerável.
A bandeira da educação compulsória e universal, financiada e pelo menos parcialmente provida pelo Estado, é uma tônica constante da economia clássica desde Adam Smith. Malthus, para citar apenas um exemplo, sugeria que o investimento público maciço em educação seria uma resposta mais eficaz do que a Poor Law (sistema de assistência social aos pobres) no combate ao pauperismo.
O ponto crucial, contudo, é que os economistas clássicos ainda tendiam a abordar a questão da educação mais sob o ângulo do bem-estar social, da mudança de atitudes e valores que acarretava, do que sob o ângulo do capital humano, isto é, como parte do esforço de investimento e formação de capital produtivo de uma nação.
Foi apenas com os "Princípios de economia" de Marshall que os economistas passaram a tratar a educação, além da saúde, alimentação etc. – o investimento em seres humanos em suma –, não mais como uma questão simplesmente humanitária (embora, é claro, também o seja), mas como parte do esforço de acumulação de capital: como investimento na capacidade produtiva da população, entendida como resultante de sua saúde e educação básica, bem como de seu grau de competência profissional.
O núcleo do argumento marshalliano é a noção de que o verdadeiro gargalo com que se defrontam as economias menos desenvolvidas não é a escassez de capital financeiro, mas a escassez de capital humano. É a falta de capacitação da comunidade para integrar-se de forma dinâmica à economia mundial que compromete o esforço de crescimento numa economia atrasada.
Mas o que é, afinal, o capital humano? O capital humano representa a capacitação do indivíduo para o trabalho qualificado. Ele é constituído não somente pelo resultado do investimento da família e da sociedade na competência produtiva das pessoas, mas também por elementos de natureza ética como, por exemplo, a capacidade dos indivíduos de agir com base nos interesses comuns. Com isso, aumenta o poder de ganho dos indivíduos no mercado e eles aprendem que é do seu próprio interesse respeitar regras gerais de conduta das quais todos os participantes da sociedade se beneficiam, embora para isso precisem restringir alguns de seus interesses pessoais mais imediatos.
É importante frisar que Marshall sustentou um argumento de caráter econômico quando defendeu a distribuição menos desigual da riqueza e da renda, de modo a promover a formação de capital humano. Seu argumento chama a atenção para os ganhos obtidos a partir da melhora na educação da população: "nenhuma mudança favoreceria tanto um crescimento mais rápido da riqueza material quanto uma melhoria das nossas escolas [...], desde que possa ser combinada com um amplo sistema de bolsas de estudo, o que permitirá ao filho do trabalhador mais simples a obtenção da melhor educação teórica e prática que nossa época é capaz de oferecer a ele."
Considerado o contexto, está correto o que consta de:
- AO sinal indicativo de crase deverá ser mantido caso se substitua "economia mundial" por "uma economia globalizada" no segmento integrar-se de forma dinâmica à economia mundial (6º parágrafo).
- BO segmento não é a escassez de capital financeiro, mas a escassez de capital humano (6º parágrafo) exprime noção de finalidade.
- CSem prejuízo da correção gramatical, o segmento impede que ele desenvolva (1º parágrafo) pode ser reescrito do seguinte modo: impede-lhe de desenvolver.
- DOs verbos do segmento Malthus [...] sugeria que o investimento público maciço em educação seria uma resposta mais eficaz (3º parágrafo) estão flexionados nos mesmos tempo e modo.
- EO segmento sublinhado em desde que possa ser combinada com um amplo sistema de bolsas de estudo (último parágrafo) pode ser substituído por "uma vez que", sem que nenhuma outra modificação seja feita na frase. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conjunções e conectivos são palavras ou expressões que estabelecem ligações lógicas e gramaticais entre termos ou orações, garantindo a coesão textual e indicando relações de sentido como causa, condição, tempo, finalidade, entre outras.
- (A) Incorreta: A crase ocorre da fusão da preposição "a" com o artigo definido feminino "a" (ou "as"). Ao substituir "economia mundial" (que aceita o artigo "a") por "uma economia globalizada" (que usa o artigo indefinido "uma"), a preposição "a" não se fundiria com um artigo definido, resultando em "a uma economia globalizada". Portanto, o sinal indicativo de crase não deve ser mantido.
- (B) Incorreta: A conjunção "mas" é uma conjunção coordenativa adversativa, que expressa oposição ou contraste entre as ideias, e não finalidade. Conjunções de finalidade seriam "para que", "a fim de que", etc.
- (C) Incorreta: O verbo "impedir" na construção original "impede que ele desenvolva" tem como objeto direto a oração "que ele desenvolva". A substituição por "impede-lhe de desenvolver" está incorreta gramaticalmente. O pronome "lhe" é objeto indireto. Se a intenção fosse impedir a pessoa de desenvolver, o correto seria "impede-o de desenvolver" (com "o" como objeto direto).
- (D) Incorreta: Os verbos "sugeria" (Pretérito Imperfeito do Indicativo) e "seria" (Futuro do Pretérito do Indicativo) estão, de fato, no mesmo modo (Indicativo), mas em tempos verbais diferentes.
- (E) Correta: A conjunção "desde que" pode ter valor condicional ("se", "contanto que"), temporal ("a partir do momento em que") ou causal ("porque", "já que"). No contexto da frase, embora a interpretação condicional ("nenhuma mudança favoreceria... se puder ser combinada...") seja a mais comum, "desde que" também pode ser interpretado como causal, justificando o potencial da melhoria das escolas ("...porque ela pode ser combinada..."). "Uma vez que" é uma conjunção predominantemente causal ("já que", "porque"). Assim, a substituição é possível sem prejuízo da correção gramatical e mantendo um sentido plausível (causal) para a frase. A armadilha da banca reside em explorar a polissemia de "desde que", que, além de condicional, pode assumir valor causal, permitindo a troca por "uma vez que".
Fonte: FCC SEFAZ-SC 2018 - Conhecimentos Gerais (P1) Conhecimentos Gerais (todas as áreas) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.