Questão nº 8

Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 8)

FCC2022Agente de Suporte EducacionalLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8, leia a crônica abaixo.

Sinto nojo e medo de lagartixas domésticas, acabei odiando o pobre bicho. Outro dia vi um menino brincar com uma, das menores por sinal, e estremeci como se a criança estivesse a cutucar um violento jacaré.

Meu apartamento vinha sendo a residência de três enormes lagartixinhas. Noites mal dormidas. Pensei: preciso matá-las para livrar-me do receio de que me caiam na cara durante o sono.

Ontem, liquidei duas.

A primeira foi mais difícil. Para começar, fitei-a longamente, como a convencer-me de minha superioridade física e moral. Armado de um cabo de vassoura, aproximei-me cauteloso, enquanto ela me olhava, a duvidar de minhas reais intenções. Não é possível – concluiu – que este sujeito vai me dar, a mim que nada lhe fiz, uma cacetada. Como eu continuasse avançando, recuou um pouco, mas, pejando-se da covardia, tornou a refletir que eu não teria motivos para maltratá-la.

Seu nobre raciocínio custou-lhe o rabo, o rabo porque, no desconcerto da emoção, o golpe desviou-se alguns centímetros do alvo. Enquanto o rabo – momento puro de misterioso terror – estertorava no chão, a bichinha esgueirou-se pela parede, ocultando-se atrás de um móvel. Os saltos do rabo solitário me acabrunhavam. Senti meu valor desfalecer. Agora, no entanto, o problema era outro: tratava-se, piedosamente, de livrar a lagartixa daquele rabo inquieto, ou seja, destruir a lagartixa aleijada. De que vale uma lagartixa sem rabo? De que vale um rabo sem lagartixa? Afastei o móvel, tive a impressão triunfante de que ela fremia de horror.

Desferi o segundo golpe com tal confusão de sentimentos que a infeliz ficou descadeirada. Tonta, sem noção do perigo, começou a arrastar-se penosamente pelo rodapé, desgraciosa e lenta. Com a terceira bordoada, estrebuchou de barriga para cima. É cadáver, respirei.

Coisa nenhuma. Ao remover o corpo, fui surpreendido por um pulo que a colocou de novo, toda estragada, na posição normal. Veio-me um frio ruim à espinha. Tive vontade de sair, dar uma volta pela praia, tomar um conhaque. A essa altura, entretanto, já não podia permitir a mim mesmo fraquezas dessa espécie. O tiro de misericórdia (ai de mim) teria liquidado uma gambá.

O assassinato da segunda (a verificação chocou-me bastante) foi incomparavelmente mais fácil. Menos emocionado, já meio habituado ao crime, desferi apenas dois golpes furiosos e fatais.

Joguei os corpos no lixo, e estava a escrever isto, quando alguém, lendo por cima do meu ombro, corrigiu a minha ignorância em dois pontos: primeiro, que lagartixa dá sorte; segundo, que, decepado o rabo de uma lagartixa, cresce-lhe outro. Assim sendo, quanto ao rabo retifico logo: uma lagartixa sem rabo, a longo prazo, vale uma lagartixa inteira. No tocante à sorte, quero dizer que o extermínio das duas inocentes parece que me ajudou muito a libertar-me do medo. A terceira lagartixa, ausente na hora da matança, pode ficar agradecida ao sacrifício de suas irmãs. E se ela me der sorte, eu lhe pouparei a vida.


O verbo em negrito deve ser flexionado em uma forma do plural caso o trecho sublinhado seja substituído pelo que se encontra entre parênteses em:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

Concordância verbal é quando o verbo muda sua forma para combinar com o sujeito da frase em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele, nós, vós, eles). Se o sujeito for singular, o verbo fica no singular; se o sujeito for plural, o verbo vai para o plural.

(A) Incorreta: O verbo "teria liquidado" concorda com o sujeito "O tiro de misericórdia" (singular). A substituição de "uma gambá" por "duas gambás" altera o objeto direto, que não influencia a flexão do verbo. A armadilha aqui é confundir o objeto (quem sofre a ação) com o sujeito (quem pratica a ação), que é o que determina a concordância verbal.
(B) Incorreta: Na oração "a mim que nada lhe fiz", o pronome relativo "que" retoma "mim" (referindo-se a "eu", 1ª pessoa do singular), que é o sujeito do verbo "fiz". A substituição de "nada" por "coisas imaginárias" não altera o sujeito "eu", que continuaria a exigir o verbo na 1ª pessoa do singular ("fiz").
(C) Incorreta: O verbo "Senti" concorda com o sujeito "eu" (implícito, 1ª pessoa do singular). A substituição de "meu valor" por "meus valores" altera o objeto direto do verbo, não o sujeito, portanto o verbo permanece no singular.
(D) Correta: Na frase "Veio-me um frio ruim à espinha", o sujeito do verbo "Veio" é "um frio ruim" (singular). Ao substituir "um frio ruim" por "sensações ruins" (plural), o sujeito passa a ser plural, exigindo que o verbo "Veio" seja flexionado para o plural, tornando-se "Vieram".
(E) Incorreta: O verbo "podia" concorda com o sujeito "eu" (implícito, 1ª pessoa do singular). A substituição de "A essa altura" por "Nesses momentos" altera um adjunto adverbial de tempo, que não tem função de sujeito e, portanto, não influencia a flexão verbal. O verbo permanece no singular.

Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Agente de Suporte Educacional (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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