Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · FCC Prefeitura de São Luís 2018 (nº 4)

FCC2018Comum Auditor Fiscal de Tributos ILíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

Atenção: As questões de números 1 a 6 referem-se ao texto que segue.

A vida privada não é uma realidade natural, dada desde a origem dos tempos: é uma realidade histórica. A história da vida privada é, em primeiro lugar, a história de sua definição: como evoluiu sua distinção na sociedade francesa do século XX? Como o domínio da vida privada variou em seu conteúdo e abrangência?

A questão é tanto mais importante na medida em que não é certo que seu contorno tenha o mesmo sentido em todos os meios sociais. Para a burguesia da Belle Époque¹, não há nenhuma dúvida: o "muro da vida privada" separa claramente os domínios. Por trás desse muro protetor, a vida privada e a família coincidem com bastante exatidão. Esse domínio abrange as fortunas, a saúde, os costumes, a religião: se os pais que querem casar os filhos consultam o notário ou o pároco para "tomar informações" sobre a família de um eventual pretendente, é porque a família oculta cuidadosamente ao público o tio fracassado, o irmão de costumes dissolutos e o montante das rendas. E Jaurès², respondendo a um deputado socialista que lhe censurava a comunhão solene da filha: "Meu caro colega, você sem dúvida faz o que quer de sua mulher, eu não", marcava com grande precisão a fronteira entre sua existência de político e sua vida privada.

Essa separação era organizada por uma densa teia de prescrições. A baronesa Staffe³, por exemplo, cita: "Quanto menos relações mantemos com a vizinhança, mais merecemos a estima e consideração dos que nos cercam", "não devemos falar de assuntos íntimos com os parentes ou amigos que viajam conosco na presença de desconhecidos". O apartamento ou a casa burguesa, aliás, se caracterizam por uma nítida diferença entre as salas para as visitas e os demais aposentos. O lugar da família propriamente dita não é o salão: as crianças não entram no aposento quando há visitas e, como explica a baronesa, as fotos de família ficariam deslocadas nesse recinto. Ademais, as salas de visitas não são abertas a todos. Se toda dama da boa sociedade tem seu "dia" de receber − em 1907, são 178 em Nevers⁴ −, a visita à esposa de um figurão supõe uma apresentação prévia. As salas de recepção estabelecem, portanto, um espaço de transição para a vida privada propriamente dita.

(Adaptado de: PROST, Antoine. Fronteiras e espaços do privado. In: PROST, Antoine; VINCENT, Gérard (orgs.). História da vida privada 5: Da Primeira Guerra a nossos dias. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 14 e 15.)

Obs.:

  1. Período de cultura cosmopolita na história da Europa que vai de fins do século XIX até a eclosão da Primeira Guerra Mundial.
  2. Jean Léon Jaurès (1859-1914): político socialista francês.
  3. Pseudônimo de Blanche-Augustine-Angèle Soyer (1843-1911), autora francesa, célebre em seu tempo pela obra Uso do mundo, sobre como saber viver na sociedade moderna.
  4. Região da França, ao sul-sudeste de Paris.

Afirma-se com correção:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 5, questão nº 6.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Conceito-chave: Aspas não servem só para marcar citação. Elas também sinalizam que uma palavra foi usada num sentido especial, diferente do literal — como uma "quebra de expectativa" ou um uso metafórico/irônico. No texto, "dia" está entre aspas porque não é um dia comum, mas um dia específico de receber visitas, uma convenção social.

  • (A) Incorreta: A oração reduzida "dada desde a origem dos tempos" tem valor adjetivo e caracteriza "A vida privada", mas "A vida privada" não é sujeito do verbo "é" (que é verbo de ligação, com predicativo "uma realidade histórica"); ela é o sujeito sim, mas a pegadinha está em dizer que o segmento adjetivo exerce função de sujeito — ele é adjunto adnominal (ou aposto explicativo), não sujeito.
  • (B) Incorreta: A oração adjetiva "que querem casar os filhos" é restritiva (restringe quais pais: só os que querem casar os filhos). Se isolada por vírgulas, vira explicativa, mudando o sentido: passaria a indicar que todos os pais querem casar os filhos, o que altera a relação sintático-semântica.
  • (C) Correta: As aspas em "dia" indicam uso especial: não é qualquer dia, mas o dia fixo de receber visitas (um ritual social da época). O contexto sugere que esse "dia" era uma ocasião propícia para exibir condutas sociais, ou seja, um traço semântico específico e contextual.
  • (D) Incorreta: A reescrita é confusa e foge à norma-padrão: "inclusive ela" quebra a coesão, e "a sua vizinhança" cria ambiguidade (de quem é a vizinhança?). Além disso, o discurso indireto não preserva a estrutura correlata original com clareza.
  • (E) Incorreta: A correlação "quanto menos... mais" indica proporcionalidade inversa (uma grandeza diminui enquanto a outra aumenta), e não diretamente proporcional (que seria "quanto mais... mais"). A banca inverteu o conceito matemático para confundir.

Fonte: FCC Prefeitura de São Luís 2018 Conhecimentos Comuns (Auditor Fiscal de Tributos I) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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