Questão nº 1

Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2018 (nº 1)

CESGRANRIO2018Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da InformaçãoLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Quanto nós merecemos?
Lya Luft

O ser humano é um animal que deu errado em várias coisas. A maioria das pessoas que conheço, se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas elas aprenderiam a lidar com eles.

Sem querer fazer uma interpretação barata ou subir além do chinelo: como qualquer pessoa que tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.

Pessoalmente, acho que merecemos muito: nascemos para ser bem mais felizes do que somos, mas nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não nos contaram essa história direito. Fomos onerados com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e... mais culpa.

Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a cabeça à tona d'água. Milagres ninguém faz.

Nessa tona das águas da vida, por cima da qual nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –, somos assediados por pensamentos nem sempre muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.

As armadilhas do inconsciente, que é onde nosso pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa fenda obscura um letreiro que diz: "Eu não mereço ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em meio aos dissabores". Nada disso. Não nos ensinaram que "Deus faz sofrer a quem ama"?

Portanto, se algo começa a ir muito bem, possivelmente daremos um jeito de que desmorone – a não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.

Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, muito mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis, obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofuscados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do governo sempre confiável. Sofremos sob o peso de quanto "devemos" a todas essas entidades inventadas, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente, tão frágil quanto nós.

Esses fantasmas nos questionam, mãos na cintura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas, está quase conquistando a pessoa amada, está quase equilibrando sua relação com a família, está quase obtendo sucesso, vive com alguma tranquilidade financeira... será que você merece? Veja lá!

Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos demais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e queremos trocar; se uma relação floresce, viramos críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito de podar carinho, confiança ou sensualidade.

Se a gente pudesse mudar um pouco essa perspectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso, mentira, egoísmo e isolamento como "proibidos", mas como uma opção burra e destrutiva, quem sabe poderíamos escolher coisas que nos favorecessem. E não passar uma vida inteira afastando o que poderia nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.

No conflitado e obscuro território do inconsciente, que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e iluminar, ainda nos consideramos maus meninos e meninas, crianças malcomportadas que merecem castigo, privação, desperdício de vida. Bom, isso também somos nós: estranho animal que nasceu precisando urgente de conserto.

Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, barata, perto de casa – ah, e que não lide com notas frias?


Ao longo do texto, a autora defende a tese de que nós, seres humanos, somos um estranho animal que nasceu precisando urgentemente de conserto porque

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

Conceito-chave: A autora diz que a gente se boicota porque, no fundo, acha que não merece ser feliz. A tese do "conserto urgente" se sustenta justamente nessa mania de autossabotagem — a gente mesmo derruba o próprio castelo, mesmo quando tudo vai bem.

  • (A) Incorreta: Não é o fato de "desconsiderar Freud" que nos faz precisar de conserto; Freud é só a referência que a autora usa para explicar o inconsciente, não a causa do problema.
  • (B) Incorreta: "Manter a cabeça à tona d'água" é o que um psicanalista diz que a terapia faz (um paliativo), não a razão de sermos um "animal que deu errado".
  • (C) Incorreta: Os "contos de ogros sobre culpa" são um dos sintomas da nossa cultura que nos ensinou a nos sentir culpados, mas a tese central do texto é o que fazemos com essa culpa: nos sabotamos.
  • (D) Correta: É exatamente isso. A autora lista várias formas de nos boicotar (escolher a droga, podar o carinho, trocar o que vai bem) e conclui que somos "estranho animal que nasceu precisando urgente de conserto" porque adotamos atitudes de autossabotagem — acreditamos que não merecemos o bem e, por isso, destruímos nossas chances.
  • (E) Incorreta: A armadilha aqui é trocar a causa pelo efeito. A autora sugere que, se parássemos de ver as drogas como "proibidas" e as víssemos como "opção burra", escolheríamos melhor. Ou seja, o problema não é achar que é proibido, mas a autossabotagem que nos leva a escolher o que nos destrói.

Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2018 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.

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