Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2018 (nº 4)

CESGRANRIO2018Técnico Científico - Área de Formação: Medicina do TrabalhoLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Quanto nós merecemos?
Lya Luft

O ser humano é um animal que deu errado em várias coisas. A maioria das pessoas que conheço, se fizesse uma terapia, ainda que breve, haveria de viver melhor. Os problemas podiam continuar ali, mas elas aprenderiam a lidar com eles.

Sem querer fazer uma interpretação barata ou subir além do chinelo: como qualquer pessoa que tenha lido Freud e companhia, não raro penso nas rasteiras que o inconsciente nos passa e em quanto nos atrapalhamos por achar que merecemos pouco.

Pessoalmente, acho que merecemos muito: nascemos para ser bem mais felizes do que somos, mas nossa cultura, nossa sociedade, nossa família não nos contaram essa história direito. Fomos onerados com contos de ogros sobre culpa, dívida, deveres e... mais culpa.

Um psicanalista me disse um dia:
– Minha profissão ajuda as pessoas a manter a cabeça à tona d'água. Milagres ninguém faz.

Nessa tona das águas da vida, por cima da qual nossa cabeça espia – se não naufragamos de vez –, somos assediados por pensamentos nem sempre muito inteligentes ou positivos sobre nós mesmos.

As armadilhas do inconsciente, que é onde nosso pé derrapa, talvez nos façam vislumbrar nessa fenda obscura um letreiro que diz: "Eu não mereço ser feliz. Quem sou eu para estar bem, ter saúde, ter alguma segurança e alegria? Não mereço uma boa família, afetos razoavelmente seguros, felicidade em meio aos dissabores". Nada disso. Não nos ensinaram que "Deus faz sofrer a quem ama"?

Portanto, se algo começa a ir muito bem, possivelmente daremos um jeito de que desmorone – a não ser que tenhamos aprendido a nos valorizar.

Vivemos o efeito de muita raiva acumulada, muito mal-entendido nunca explicado, mágoas infantis, obrigações excessivas e imaginárias. Somos ofuscados pelo danoso mito da mãe santa e da esposa imaculada e do homem poderoso, pela miragem dos filhos mais que perfeitos, do patrão infalível e do governo sempre confiável. Sofremos sob o peso de quanto "devemos" a todas essas entidades inventadas, pois, afinal, por trás delas existe apenas gente, tão frágil quanto nós.

Esses fantasmas nos questionam, mãos na cintura, sobrancelhas iradas:
– Ué, você está quase se livrando das drogas, está quase conquistando a pessoa amada, está quase equilibrando sua relação com a família, está quase obtendo sucesso, vive com alguma tranquilidade financeira... será que você merece? Veja lá!

Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada falho tiramos o tapete de nós mesmos e damos um jeito de nos boicotar – coisa que aliás fazemos demais nesta curta vida. Escolhemos a droga em lugar da lucidez e da saúde; nos fechamos para os afetos em lugar de lhes abrir espaço; corremos atarantados em busca de mais dinheiro do que precisaríamos; se vamos bem em uma atividade, ficamos inquietos e queremos trocar; se uma relação floresce, viramos críticos mordazes ou traímos o outro, dando um jeito de podar carinho, confiança ou sensualidade.

Se a gente pudesse mudar um pouco essa perspectiva, e não encarar drogas, bebida em excesso, mentira, egoísmo e isolamento como "proibidos", mas como uma opção burra e destrutiva, quem sabe poderíamos escolher coisas que nos favorecessem. E não passar uma vida inteira afastando o que poderia nos dar alegria, prazer, conforto ou serenidade.

No conflitado e obscuro território do inconsciente, que o velho sábio Freud nos ensinaria a arejar e iluminar, ainda nos consideramos maus meninos e meninas, crianças malcomportadas que merecem castigo, privação, desperdício de vida. Bom, isso também somos nós: estranho animal que nasceu precisando urgente de conserto.

Alguém sabe o endereço de uma oficina boa, barata, perto de casa – ah, e que não lide com notas frias?


No trecho "Ouvindo isso, assustados réus, num ato nada falho tiramos o tapete de nós mesmos" (ℓ. 52-53), a oração reduzida em negrito apresenta, em relação à oração seguinte, o valor semântico de

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O conceito-chave: Orações reduzidas de gerúndio (como “Ouvindo isso”) funcionam como adjuntos adverbiais, e o valor semântico delas depende do contexto. Quando o gerúndio indica uma ação que acontece ao mesmo tempo ou imediatamente antes da ação principal, o valor é de tempo. A pegadinha aqui é confundir “tempo” com “modo”, pois ambas podem responder a perguntas parecidas, mas o modo descreve como a ação é feita, enquanto o tempo responde quando.

  • (A) Correta: “Ouvindo isso” expressa o momento em que “tiramos o tapete de nós mesmos” — ou seja, a ação de ouvir é simultânea/imediatamente anterior à ação de se boicotar, indicando tempo (“quando ouvimos isso, tiramos o tapete”).
  • (B) Incorreta: Modo indicaria de que maneira tiramos o tapete (ex.: “correndo, tiramos o tapete”), mas “ouvindo isso” não descreve a forma da ação, e sim o momento dela.
  • (C) Incorreta: Oposição exigiria uma relação de contraste (ex.: “embora ouvindo isso, tiramos o tapete”), o que não ocorre no trecho.
  • (D) Incorreta: Proporção indicaria uma relação de proporcionalidade (ex.: “quanto mais ouvimos, mais tiramos o tapete”), ausente no contexto.
  • (E) Incorreta: Consequência indicaria um efeito (ex.: “ouvimos isso, portanto tiramos o tapete”), mas a oração reduzida não expressa resultado, e sim circunstância temporal.

Armadilha da banca: O distrator mais tentador é (B) modo, porque muitos alunos associam gerúndio a “modo” automaticamente. Mas o gerúndio só é modo quando responde “de que jeito?” (ex.: “falou gesticulando”). Aqui, a pergunta correta é “quando?” — o que elimina o modo e confirma o tempo.

Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2018 Técnico Científico - Área de Formação: Medicina do Trabalho. Reproduzida para fins de estudo.

Continue estudando

Estudar é izi

Pratique milhares de questões como esta, de graça, com explicação e gamificação no Quizinho.

Estudar de graça no Quizinho