Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO ANP 2016 (nº 1)
Entrevista com Frédéric Martel
Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios de comunicação se trava pela conquista do público dentro e fora dos países criadores. Batalhas se desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos, música, livros. Nesse processo, um gigante domina: os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir cultura de massas que agrada ao grande público em todos os continentes. Essa penetração cultural americana, que muitos críticos preferem chamar de imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão americana para o mundo. Sua arma é o inverso da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de nichos especializados. Visa o público em geral, cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura internacional dominante, principal, a chamada mainstream, conforme o título do livro escrito pelo sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever Mainstream, ele percorreu 30 países durante cinco anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas as capitais do entertainment, analisou a ação dos protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a circulação internacional de conteúdo.
É um imperialismo diferente daquele político e militar. É uma espécie de imperialismo cultural que é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma Frédéric Martel: "É o que basicamente chamamos de soft power. Soft power significa influenciar as pessoas com coisas legais. Você é amigável, não é contundente. Você tem as forças armadas, tem a diplomacia tradicional e grandes empresas econômicas, que formam o hard power, e tem o soft power, que influencia as pessoas através de filmes, de livros, da internet e de valores."
"A língua é importante. Eu acredito — e essa é a principal conclusão do meu livro — que, no mundo em que estamos entrando, que reúne globalização e digitalização, a língua é importante. E eu acredito que a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte da cultura que você consome e ama geralmente é nacional, local, regional, e não global. A cultura global é apenas uma pequena parte do que você gosta. Então, no final das contas, os americanos são os únicos a poder prover essa cultura dominante global, mas essa cultura dominante global continua pequena. Por quê? Porque a língua é muito importante, porque a identidade é muito importante. Quando você compra um livro de não ficção, quer saber o que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto, nós estamos em um mundo cada vez mais global, mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos temos duas culturas: a nossa e a americana."
"Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de relação que você, como brasileiro, tem com os EUA. Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como eles, muito embora nós queiramos manter nossa identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é que o debate no mundo hoje e no futuro não será entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os americanos. Será entre todos nós. O que eu quero dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os EUA. O mundo é muito mais complicado, com países emergentes, que serão fundamentais nesse novo jogo."
"Para resumir, afirma Martel, eu diria que os EUA continuarão sendo peça importante da guerra de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do declínio da cultura americana. Eu acho que eles são fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os únicos no jogo. Agora temos os países emergentes, que estão emergindo não só demográfica e economicamente, como pensávamos. E eu fui um dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo com sua cultura, sua mídia e com a internet."
"Nesse mundo, a internet pode ser uma peça importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com a internet, com certeza. Criam-se ferramentas inovadoras de alfabetização, por exemplo, em comunidades, em favelas, em lugares onde os moradores não têm acesso a uma livraria ou biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan houses, por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje, todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo na África, todos têm celulares com funções básicas. Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os preços estão caindo muito. Assim, todos poderão acessar a internet pelo smartphone. Se você tem acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede, pode ver filmes e daí por diante."
"A questão não é se essa tecnologia é boa, conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo deste país e nós formos capazes de fazer com ela, criando uma boa internet e uma maneira melhor de ter acesso ao conteúdo através da internet."
Para garantir uma compreensão adequada de um texto, é preciso reconhecer o modo como o tema foi desenvolvido, identificando a sequência em que as ideias nele foram expostas.
Assim, antes de o texto apresentar a opinião do sociólogo Martel sobre a convivência entre a cultura globalizada e as culturas locais (3º parágrafo), refere-se
- Aao aparecimento de países emergentes que podem interferir na polarização entre americanos e europeus no domínio dos bens culturais.
- Bao imperialismo cultural de origem americana promovido pela capacidade de produzir cultura de massas que agrada ao grande público. (alternativa correta)
- Cà possibilidade de declínio da cultura americana devido à competição com os meios de comunicação dominados por países europeus.
- Dà importância crescente da internet para criação de ferramentas inovadoras de alfabetização, para pessoas que não têm acesso a uma livraria ou biblioteca.
- Eà complexa relação de amor e ódio que existe entre alguns povos do mundo e os americanos, devido à grande penetração em termos de cultura de massas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Progressão textual é a ordem em que as ideias são apresentadas no texto. Para acertar, você deve localizar quando cada informação aparece, não apenas o que ela significa. A pergunta pede o que vem antes do 3º parágrafo, ou seja, o conteúdo do 1º e 2º parágrafos.
- (A) Incorreta: A menção aos países emergentes como novos jogadores só aparece no 4º e 5º parágrafos, depois da opinião citada.
- (B) Correta: O 1º e o 2º parágrafos descrevem exatamente o imperialismo cultural americano, explicando como os EUA dominam a mídia global com cultura de massa (mainstream) e definem esse poder como soft power.
- (C) Incorreta: A ideia de declínio da cultura americana é negada por Martel no 5º parágrafo; além disso, a competição com países europeus não é o foco inicial.
- (D) Incorreta: A internet como ferramenta de alfabetização é citada apenas no 6º parágrafo, bem depois da opinião sobre culturas locais.
- (E) Incorreta: A relação de amor e ódio com os EUA é mencionada no 4º parágrafo, que vem depois do 3º, e não antes. Armadilha da banca: esta é a pegadinha mais tentadora, pois o tema é citado no texto, mas a banca inverte a ordem cronológica das ideias para confundir quem leu o texto "por cima".
Fonte: CESGRANRIO ANP 2016 Conhecimentos Comuns (Técnico em Regulação). Reproduzida para fins de estudo.