Questão nº 24

Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2026 (nº 24)

CEBRASPE2026Diplomata (Terceiro Secretário)Língua Portuguesa

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.

"Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128.

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:

— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?

— Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.

E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:

— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364.


Os dois textos alcançam um efeito crítico realista semelhante: o questionamento da realidade deformada pela lógica das classes letradas, seja a do filósofo Pangloss em sua 'fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal', no texto de Voltaire, seja a do juiz Veloso, para quem a perda do paraíso vale o sabor de um doce, no texto de Machado de Assis.

Resposta comentada

Os dois textos usam o humor crítico para desmascarar uma lógica que finge que "tudo está bem" mesmo diante do absurdo: Pangloss justifica toda desgraça como parte do "melhor dos mundos possíveis", e o juiz Veloso reduz a perda do paraíso a um simples detalhe diante do doce. Nos dois casos, a fala letrada e pomposa (filósofo, juiz) é ridicularizada por sua incoerência com a realidade concreta — esse é o efeito realista crítico comum.

  • Correta: Certo. Voltaire satiriza o otimismo filosófico de Pangloss; Machado satiriza a retórica vazia do juiz Veloso — ambos expõem o discurso culto como deformador da realidade.

Fica de olho: A banca costuma trocar "semelhante" por "idêntico" ou "oposto" — dizendo que os textos têm efeitos contrários (um otimista, outro pessimista) ou que não há crítica social em um deles. A pegadinha é forçar você a ver diferença onde há convergência de método (ironia contra o discurso letrado), ou a aceitar que a comparação exige igualdade de gênero/tema, quando basta a função crítica comum.

Fonte: CEBRASPE IRBR 2026 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.

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