Questão nº 21

Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2026 (nº 21)

CEBRASPE2026Diplomata (Terceiro Secretário)Língua Portuguesa

A partir da leitura comparativa entre o texto de Voltaire e o de Machado de Assis, julgue os itens a seguir, relativos a aspectos linguísticos e literários dos fragmentos.

"Ó Pangloss!", exclamou Cândido, "não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo." "O que é otimismo?", dizia Cacambo. "Lamentável!", disse Cândido, "é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal." (...) [O filósofo] Pangloss dizia às vezes a Cândido: "Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivésseis sido expulso de um lindo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegunda, se não tivésseis sido submetido à Inquisição, se não tivésseis percorrido a América a pé, se não tivésseis dado um bom golpe de espada no barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país de Eldorado, não comeríeis aqui cidras recheadas de pistaches".

François Marie Voltaire. Cândido, ou o otimismo. Tradução de Mário Laranjeira. São Paulo: Penguin Classics Companhia da Letras, 2012, pp. 83 e 128.

Eva escutava impassível [a serpente]; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso... (...) E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dois egressos da criação... Tendo acabado de falar, o juiz de fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. Dona Leonor foi a primeira que falou:

— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?

— Lá o saberá o Sr. Juiz – respondeu o carmelita sorrindo.

E o juiz de fora, levando à boca uma colher de doce:

— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa.

Machado de Assis. Adão e Eva. In: 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 363-364.


No texto de Voltaire, o emprego redundante da expressão 'se não tivésseis' (último período) sugere que, para o autor, a força estética da composição está em segundo plano, ao contrário do que ocorre no texto de Machado de Assis, marcado pela fluidez e pela espontaneidade da linguagem nos diálogos entre as personagens.

Resposta comentada

Recursos expressivos (escolhas de linguagem que produzem efeito de sentido) não são "enfeite" opcional: eles constroem o próprio sentido do texto. A repetição de "se não tivésseis" em Voltaire é uma anáfora (repetição intencional no início de segmentos) que cria ritmo, acumulação e ironia — é estilo, não descuido. Além disso, comparar os dois autores afirmando que um "põe a estética em segundo plano" é juízo de valor sem base no fragmento.

  • Correta: Errado. O item torce o conceito ao dizer que o uso repetido de "se não tivésseis" sugere que a força estética está "em segundo plano" — quando, na verdade, a repetição é recurso expressivo deliberado (anáfora), e não sinal de desprezo pela forma.

Como ficaria certo: No texto de Voltaire, o emprego reiterado de "se não tivésseis" constitui recurso expressivo intencional (anáfora), que reforça o ritmo e a ironia do encadeamento otimista, evidenciando elaboração estética — e não descuido formal.

Fonte: CEBRASPE IRBR 2026 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.

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